São Paulo sem Glúten
Reconhecida pela presença de restaurantes para todos os gostos, São Paulo testemunha as primeiras iniciativas daquilo que já virou uma tendência mundial: o surgimento de restaurantes que oferecem opções sem glúten.
Mais do que uma dieta na moda ou uma opção alimentar, a necessidade de eliminar totalmente o glúten da dieta é fundamental para os portadores da doença celíaca, um problema auto-imune desecandeado pela presença do glúten (presente no trigo, cevada e centeio) no organismo. Para estas pessoas, a ingestão mesmo que mínima de glúten pode ser bastante prejudicial, tanto a curto como longo prazo. Ou seja, pães, massas, biscoitos, molhos, e tudo que possa ter entrado em contato com o glúten em algum momento estão riscados da dieta. Em função disto, muitos celíacos vêem sua vida social bastante prejudicada uma vez que atividades como viajar e comer fora tornam-se difíceis e arriscadas.
E de fato, até recentemente eram muito poucos os restaurantes que ofereciam opções apropriadas para os celíacos: os donos de restaurantes ou simplesmente não tinham conhecimento da condição, ou achavam que o esforço adicional de proporcionar opções sem glúten seguras para os celíacos não valia a pena. Mas esta situação está mudando, para a alegria de celíacos e (veja abaixo) dos próprios donos de negócios - no mundo todo.
Tendência Mundial
Não somente nas grandes capitais mundiais, como em centenas de outras cidades, não param de surgir restaurantes, cantinas, pizzarias, bistrôs, fast foods e bares com opções para celíacos ou mesmo com menus exclusivos para eles.
Em Nova Iorque, por exemplo, é fácil sair para tomar uma cerveja com os amigos, seguida de pizza e uma bela sobremesa (todos sem glúten, claro). Em Madrid e Barcelona, as famosas ‘tapas espanholas' já podem ser experimentadas pelos celíacos em diversos bares e restaurantes. Paris também acaba de inaugurar seu primeiro restaurante exclusivo para celíacos. E em cidades da Finlândia, Austrália e Nova Zelândia, o difícil é encontrar um restaurante que não saiba do assunto, ou não tenha no mínimo as opções que naturalmente não contém glúten discriminadas no cardápio.
E não é para menos. Em geral, estima-se que quase 1% da população dos países onde a doença foi estudada (incluindo o Brasil) seja portadora da doença. Embora a maioria destas pessoas ainda não seja diagnosticada, a taxa de diagnóstico vem aumentando significativamente. Nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa de diagnóstico da doença quadruplicou de 1950 para cá. Ser celíaco não é mais um condição tão rara, e a tendência é que se torne cada vez mais comum, na medida em que o grau de conscientização sobre a doença e taxa de diagnóstico aumentam. Assim, os donos de restaurantes que oferecem opções sem glúten abrem as portas para um novo nicho do mercado. E este é um nicho muito especial, pois os celíacos costumam ser clientes extremamente fiéis. Se há um restaurante onde podem comer será para lá que eles irão com sua família e amigos.
Pioneiros em São Paulo
Hamburger sem glúten? Já é possível consumi-lo no Quattrino. Há cerca de um ano o restaurante Quattrino oferece uma ampla gama de pratos sem glúten em seu cardápio. Dentre estes o hambúrguer de salmão e quinua real (foto à direita), diversos risottos, spaghetti, e até mesmo uma panqueca a base de quinua real de sobremesa (foto a direita). Segundo Mary Nigri, dona do Quattrino, os pratos são preparados com todo cuidado para evitar a contaminação cruzada - um esforço que vale a pena, já que segundo ela o cardápio sem glúten tem cada vez mais saída. "Uma vez que o cliente prova...adora", comenta Mary, que também afirma que os clientes costumam voltar com frequência.
Difícil imaginar que um restaurante tradicionalmente conhecido pelos deliciosos sanduíches também fosse pioneiro nesta iniciativa. Mas qual não foi a nossa agradável surpresa ao saber, através da Raquel Benati (presidente da Associação de Celíacos-RJ), que a cadeia de restaurantes América - tradicional e conhecida na cidade de São Paulo, atualmente com várias unidades em vários bairros - agora discrimina em seu cardápio os itens sem glúten apropriados para celíacos. Estivemos em contato com o América, que nos informou que a novidade decorre da própria procura dos clientes por estas possibilidades. Segundo Raquel Penha, nutricionista do América, os produtos são embalados separadamente, e a manipulação é realizada de forma que não haja contato entre alimentos, tomando-se todos os cuidados possíveis para que não haja contaminação cruzada.
Outra opção é a rede de restaurantes autralianos Outback. Através de um acordo internacional, todas as unidades da rede - presente em diversos países, e que em São Paulo possui 10 unidades - possuem um cardápio especial onde os itens que contém e não contém glúten são identificados.
Amantes da Cerveja
Para o paulista acostumado a tomar uma cervejinha com os amigos, o diagnóstico da doença celíaca pode representar uma privação importante, já que por serem elaborados a base de cevada - ou trigo em alguns casos - as cervejas possuem glúten. Mas para os que sonham com esta que para nós é uma bebida social por excelência, temos uma boa notícia: a cervejaria Melograno, na Vila Madalena (foto à esquerda), já oferece cerveja sem glúten importada da Espanha aos seus clientes. Daura Damm, a cerveja sem glúten (foto acima), possui as mesmas propriedades que as cervejas normais (5.4% de conteúdo alcólico), porém passa por um processo em que o glúten é degradado, tornando-se apropriada para o consumo. Neste empório da cerveja, a loira gelada já não é mais uma utopia para os celíacos!
Oportunidades
A Organização das Nações Unidas projeta uma população de cerca de 19.3 milhões de pessoas na cidade de São Paulo em 2010, elevando a metrópole ao posto de terceira mais populosa do mundo. Se consideramos os resultados de um estudo*** que mostra que pelo menos 1 em cerca de cada 200 paulistanos é celíaco, seriam quase 100 mil paulistanos portadores. Embora nem todos sejam - ou serão - diagnosticados, investir no atendimento ao celíaco não apenas se reverte em benefícios diretos para esta população, mas também na captura de um novo nicho do mercado que apenas agora começa a ser explorado. Por exemplo, na cidade da pizza, ainda não temos nenhuma pizzaria que ofereça pizzas sem glúten apropriadas para celíacos. As oportunidades são muitas, basta saber aproveitá-las. Os celíacos agradecem!
Terminamos este artigo convidando os leitores a divulgar outras iniciativas que porventura conheçam na cidade. Deixe seu comentário!
Mais informações
* Lista dos Estabelecimentos que servem e vendem produtos sem glúten em São Paulo
* Mapa dos Estabelecimentos que servem e vendem produtos sem glúten em São Paulo
* Dicas para Estabelecimentos que queiram começar a servi-las: clique aqui
* Para mais informações e fornecedores de produtos sem glúten, contate a Associação de Celíacos de seu estado (Lista das Associações)
*** Oliveira et al. High prevalence of Celiac Disease in brazilian blood donor volunteers based on screening by IgA anti-tissue transglutaminase antibody. European Journal of Gastroenterology and Hepatology 19, 2007.
Estabelecimentos Citados
QUATTRINO DO HOTEL: Rua Iguatemi, 150 (Hotel Tryp Iguatemi), Itaim. Telefone: 3704-5116
QUATTRINO JARDINS: Rua Oscar Freire, 506, Jardins. Telefone: 3068-0319
MELOGRANO: Rua Aspicuelta, 436, Vila Madalena, São Paulo. Telefone: 3031-2921.
RESTAURANTES AMÉRICA: Diversas Unidades em São Paulo. Clique para ver o website.
RESTAURANTES OUTBACK: Diversas Unidades em São Paulo. Clique para ver o website.
Veja também
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Li a reportagem "São Paulo sem Glúten" e me chamou a atenção sobre o cardápio especial do Outback e do América. Eu já tinha lido isso em outro site, porém já fui ao Outback mais de uma vez (a última foi no dia 06/09/2009), mencionei que eu era celíaca e o garçom ficou com cara de "o que é isso?', perguntei sobre cardápio especial e eles não sabiam de nada. No América confesso que já faz uns dois meses que não vou, não sei se este cardápio é uma novidade, mas da última vez pedi uma batata assada recheada e pedi para o garçom perguntar se o creme de queijo tinha farinha e ele não foi! Somente me afirmou que não tinha que podia confiar, etc, enfim, resolvi pedir sem o creme. Vou visitar os dois restaurantes este mês de outubro e escrevei novamente para dizer destas novidades.
Sou cliente do Emporio São Paulo ha anos e eles ainda tem pouquissimos produtos sem gluten. Ja conversei com os Gerentes das diversas lojas e ja fiz sugestoes, mas a alegação e que precisam saber quais sao os fornecedores. Outro dia estive na loja da Afonso Bras e ao perguntar a atendente da Rotisserie, super atenciosa, sobre quais produtos nao tinham gluten, ela me respondeu que todos tinham "conservantes", ou seja, e preciso que os funcionarios sejam treinados e saibam identificar o que e produto sem gluten. Mas vamos chegar la, pois mesmo sem ser diagnoticada celiaca, a diferença em bem estar entre comer ou nao gluten e brutal., ou seja, muitos sintomas "nao identificados" sao eliminados pelo simples fato de deixar de comer gluten. Espero que em breve, as padarias e rotissiries entrem nesta onda.
Oi Daniela,
De fato uma outra leitora também comentou que não teve uma experiência condizente com a oferta de cardápio sem glúten no Outback. Iremos contata-los para saber se o problema são diferenças no treinamento de funcionários (e política em relação ao cardápio sem glúten) nas diferentes unidades, ou alguma outra questão. O Outback brasileiro anuncia (assim como as unidades internacionais) o cardápio sem glúten (ver em http://www.outback.com.br/cardapios-especiais.asp), mas se não há treinamento da equipe e medidas rígidas para garantir a isenção de gluten nos pratos anunciados a visita ao restaurante se torna arriscada (e frustrante).
Abraços,
Oi Cristina, obrigada pela mensagem. Certamente ainda há muito a ser melhorado, mas acreditamos que o fato de que os estabelecimentos estejam prestando um pouco mais de atenção (e conhecendo) o tema já é positivo. Como você, estamos torcendo para que cada vez mais lugares ofereçam (e saibam oferecer) mais opções sem glúten em suas estantes e cardápios.
Grande abraço,
JA fui algumas vezes no outback e também ja passei por isso, o garçom me olhou com cara de "socorro o q será isso", se fosse so isso nao teria problema, mas ja pedi mais de uma vez comida do cardapio sem glutem e passei super mal. Nao sei se os cozinheiros sao orientados sobre a facil contaminação do glutem, em talheres, chapas e panelas nao lavadas adequadamente....